06-08-2013
O dia começou com uma breve visita à Mary e ao Robin para tirarmos algumas fotografias do seu terraço. Tinhamos prometido na noite anterior colocar mais fotos do seu espaço no Tripadvisor, mas a bateria da máquina esgotou-se mesmo quando estávamos a acabar de fotografar os quartos da guesthouse.
Melhor assim! Acabaram por nos oferecer o pequeno-almoço, muito embora chamuças vegetarianas (recheio de batata, ervilhas e várias especiarias) não fosse bem o pequeno-almoço continental pelo qual ansiávamos há pelo menos 15 dias…eles olharam-nos com um olhar de estranheza, de quem está a tentar evitar transparecer que sente alguma estranheza, mas ao mesmo tempo tem aquela sensação de que talvez estes dois tugas não tenham sido completamente honestos quando disseram que tinham adorado as chamuças.
Descansa Mary (não és tu, Maria, é mesmo a Mary indiana), as chamuças estavam ótimas, mas ficámo-nos pelo delicioso chai que parecendo que não, não sabemos se pelo leite ou também pelas especiarias, consegue dar-nos uma ótima energia sempre que o tomamos.
Depois de nos despedirmos dos nossos anfitriões, lá nos dirigimos para o hotel onde esperámos pelo condutor que tínhamos contratado no hotel, para nos levar de Udaipur a Jodhpur, com passagem pelo forte que dizem ter a segunda maior muralha do mundo (adivinhem qual é a primeira!) com 38 km de comprimento – o Khumbalgarh Fort – e ainda pelo famoso templo Jain em Ranakhpur.
O nosso condutor, era um rapaz com 25 anos, já casado e com duas filhas. Ouch…Saiu-lhe cara a brincadeira…quando lhe perguntámos se não ia querer tentar ter mais um filho para ver se lhe saía um rapaz, rapidamente nos indicou que não estava nos seus planos…o que se compreende dada a despesa que traz trazer uma mulher a este mundo (ok esta parte foi o Diogo que escreveu com a Sara a bater-lhe), especialmente na Índia! =)
O nosso aparentemente simpático condutor era na verdade um road killer, só com a ajuda de Krishna, Ganesh, Hanuman entre outras divindades indianas é que não acabámos atolados numa fossa, derrapados numa das várias ravinas no caminho, enfiados nos cornos das muitas vacas que teimavam em não se desviar ou simplesmente enfaixados de frente com muitos dos carros, jipes e autocarros com os quais nos cruzámos no caminho.
Foi a nossa primeira viagem por estradas que se podem considerar rurais. Estradas de apenas 1 faixa para 2 sentidos, em péssimo estado de conservação. Vá lá que a paisagem ia distraindo de tempos a tempos.
A condução foi um pouco alucinante desde o início pelo que tivemos que tentar balbuciar algo para tentar acalmar o nosso condutor…e a nós também. Já não nos conseguimos recordar exatamente das nossas palavras (estar a enfrentar a morte certa, prega-nos estas partidas à memória), mas terá sido qualquer coisa no espírito do nosso “devagar se vai a longe”. Óbvio que o homem percebeu a dica e levou algo a peito…tendo indicado “Don’t worry my friend…my driving very safe”. Na verdade de pouco serviram os nossos vários avisos, dadas as inúmeras situações de quase-colisão frontal com carros em sentido oposto. Chegou a um ponto em que a Sara queria mesmo matar o homem – pouco faltou – e portanto só lhe conseguia dar aquele ar (que muitos apelidam como sendo de Terceira Guerra Mundial) para lhe dizer “Can you drive more carefully, Sajid? I feel like I am going to die in this car…” (isto é o que soa à Sara, mas para o Diogo e outros soaria mais a “My friend can you drive slower or I will smack your head with a screwdriver, resulting in a painfully slow death?”. É que esta malta tem uma mania de de ultrapassar nos sítios mais impossíveis em estradas tipo de montanha (curva-contracurva). Já para não falar do facto desta gente, que oficialmente conduz pelo lado esquerdo, passar a vida na faixa da direita quando nem espaço para uma vaca existe (algo que poderá ser uma forma de ainda manifestarem a sua revolta contra a colonização).
Mas o ponto alto da nossa viagem foi sem dúvida o termos pela primeira vez jogado ao jogo da Galinha…não, não nos enganámos. Não é o jogo do Galo com as cruzes e bolas, isso é para meninos, nada disso. Segue uma pequena introdução para quem não está familiarizado com o jogo:
O jogo da galinha, também conhecido pelo jogo falcão-pombinha, faz parte da Teoria dos Jogos. O princípio deste jogo diz-nos que quando nenhum dos jogadores quer desistir, o pior resultado do jogo ocorre.
O nome “galinha” tem a sua origem num jogo em que dois condutores conduzem um contra o outro em rota de colisão: um deles tem que se desviar ou, worst case scenario, podem morrer os dois na colisão. Se algum deles se desviar fica conotado como sendo a “galinha”, ou seja um cobarde.
Por acaso, sorte, acção de Krishna, chamem-lhe o que quiserem apanhámos a pombinha, que no entanto levava sempre o jogo à última. Fazia lembrar os condutores de “buggy” no Brasil que logo à cabeça perguntam “Com emóção ô seim emóção?!”. Excepto que neste caso não nos foi dada esta escolha.
Chegámos por volta das 11h ao local do forte. Dado que era um feriado religioso, havia imensos, mas imensos indianos a visitarem o forte. Geralmente ver-se-iam mais estrangeiros do que locais mas neste dia não foi o caso. Tivemos uma árdua subida de cerca de meia hora até ao forte pois o trânsito estava bloqueado a partir de certo ponto, dado o grande afluxo.
O forte é um local de relevo pois marca a antiga separação entre Marwar (zona do reino de Jodhpur) e Mewar (reino de Udaipur), tendo sido várias vezes usado como refúgio para a realeza de Udaipur. Situa-se no topo de uma colina com uma visibilidade incrível para tudo o que se situava em redor, facto não pouco importante para a sua quase invencibilidade em cerca de 500 anos (foi tomado uma única vez devido à escassez de água durante um ataque combinado de vários reis). O forte é também importante para os locais pois foi o local de nascimento de Pratap Singh, filho de Udai Singh, o fundador de Udaipur. O filho desempenhou um papel crucial na defesa do reino de Udaipur de ataques de outros reinos.
Enquanto nos maravilhávamos com a vista e com o forte reparámos que os visitantes locais estavam igualmente maravilhados…mas com a Sara. Para muitos terá mesmo sido o highlight da visita ao forte. Para nós tornou-se algo desconfortável ao fim de pouco tempo e levou a que procurássemos locais de refúgio dentro do forte! Aprendemos que uma mulher branca de calção curto, por mais calor que faça, nunca é uma boa opção.

Depois da visita ao forte, seguimos de novo para a viatura e para o nosso condutor…para visitarmos o famoso templo Jain de Ranakphur. Este templo foi todo construído em mármore e tem a particularidade de ter 1444 colunas esculpidas todas diferentes umas das outras. O templo tem 4 frentes, simbolizando a conquista do cosmos, o atingimento do estado de Tirthankara. Um Tirthankara é um ser humano que atingiu um estado de iluminação que lhe permite ajudar outros no seu caminho espiritual e libertarem-se do ciclo de nascimento e morte (samsara). Para entrar tivemos que nos descalçar e usar calça comprida apesar do calor!!!
Mesmo já com calças, os visitantes masculinos do templo voltaram a manifestar muito interesse nos turistas, mais do que no templo e na sua história propriamente dita, pelo que a nossa visita foi curta =) Seguimos para almoço pouco depois.
Almoço foi delicioso, apesar de termos parado naquilo que pode ser considerado um sítio caro para os padrões indianos. Dum Aloo Curry (tomate, queijo, batata, frutos secos) acompanhado com chapati – delicioso! Um prato com bebida e pão por 450 rupias para os dois, cerca de 5, 50 euros; não fosse o prato estar delicioso e teríamos tido saudades dos almoços económicos do Maia Vip com os coquinhos a acompanhar o café!).
Depois de almoço seguimos directos para Jodhpur, para uma viagem que ainda demoraria cerca de 5 horas. O caminho foi tendo os seus altos e baixos mas apanhámos uma boa parte de estradas um pouco melhores (quase auto-estrada) pelo que o nível de ansiedade baixou e ainda conseguimos passar pelas brasas.
Claro que durante este percurso o nosso condutor tentou persuadir-nos a “just look, not buy” algumas preciosidades como têxteis, joalharia, etc, ou seja, a lenga-lenga do costume. Recusámos gentilmente, dizendo que tínhamos pouco espaço nas mochilas, ou seja, não mentimos =)
Dado que falhou esta tentativa, tentou arranjar-nos um quarto em Jodhpur. Lá aceitámos ver o quarto (no fundo evitámos a gorjeta, pois assim ele recebia comissão do tipo do hotel) que acabou por ser agradável e bem melhor do que aquele que tinhamos marcado na primeira noite que diga-se acabou por ser um pardieiro. Mas isso já são aventuras que poderão ler no próximo post.
Por isso não percam o próximo episódio porque nós também não!



















































