A viagem para Ipoh de autocarro apesar de tranquila foi algo desconfortável mas dentro do que seria de esperar com 60 indianos, chineses, malaios e portugueses enfiados tipo sardinha em lata num autocarro.
A parte mais assustadora foi pensar que o nosso condutor ia queimar a embraiagem a meio da viagem e íamos ficar apinhados numa auto-estrada malaia a noite inteira… Não houve primeira que o tipo engatasse sem arranhar profundamente a caixa, o que fazia estremecer o autocarro e todos os seus ocupantes. A primeira e segunda vez ainda passou, mas a partir dai começámos mesmo a acreditar que o nosso charuto não ia chegar ao destino. Até que, muito colado ao som do arranhar da caixa, começámos a distinguir um outro som muito curto que antecedia este. Apercebemo-nos de que comer “pipas” (sementes de girassol) enquanto se conduz pode não dar a maior sensação de segurança aos passageiros. Nada que atrapalhasse o nosso condutor indiano, pois parecia unicamente preocupado em arrancar a semente do interior da casca do que com o estado da embraiagem do seu veículo.
Já perto de Ipoh, o autocarro ainda fez 2 ou 3 paragens curiosas em plena auto-estrada nas quais desambarcavam sempre 1 ou 2 indianos que se embrenhavam na floresta escura que nos rodeava.
Chegados à estação, a cerca de 8km do centro veio a primeira prioridade. Comer! Qual a única opção na estação de autocarros àquela hora? Hmmm…parece que voltámos ao caril. Não teria sido a nossa escolha, caso tivéssemos outras opções, mas a fome foi mesmo o melhor tempero e a coisa nem correu mal!
Posto isto ,táxi para o centro, para o nosso hotel. Pela cara do taxista quando lhe dissemos o nome da unidade hoteleira percebemos logo que não ia ser uma grande estadia. Nada a que não estejamos habituados já. =)
Um sítio ligeiramente manhoso e 3 lances de escada para chegarmos ao quarto, mas de resto perfeitamente adequado.
A intenção era só passar a noite para de manhã irmos para as Cameron Highlands a cerca de 50km, no entanto apercebemo-nos de que o fim de semana era de festa na Malásia, pois a segunda-feira era feriado, pelo que os preços de alojamento nas Highlands estavam absurdamente elevados.
Resultado: mais um dia de manhosice e aproveitar para atualizar planeamentos e relatos online! =)
Ipoh, é uma cidade pequena comparada com Kuala Lumpur e não nos parece que ocupe um lugar de relevo na lista de locais a conhecer de um viajante, a não ser como ponto de passagem para chegar às Highlands.
Depois da paragem obrigatória de dois dias, dirigimo-nos para o embarque no autocarro que nos ia levar ao destino desejado. Um autocarro bem confortável e uma viagem de cerca de 2 horas muito agradável (a esta altura do campeonato, as várias ultrapassagens assustadoras já não causam mossa) a partir do momento em que começamos a entrar na zona montanhosa.
As montanhas nas Cameron estão todas esculpidas com plantações em socalcos e inúmeras estufas para aproveitarem o clima particular desta zona, onde a temperatura média anual ronda os 18ºC.
Ficámos alojados em Tanah Rata, num acolhedor Camelia Inn, gerido por uma família indiana que depois de começarem com o supermercado na rua, expandiram para o sector hoteleiro. Um quarto bem pequeno mas perfeitamente suficiente e confortável. Depois do check-in passeámos na pequena vila e degustámos alguma street food, com as ruas ainda bem movimentadas com música, festa e comida devido ao facto de ser feriado.
Depois de uma passagem por um ponto de informação turística planeámos os nossos dias nestas deliciosas terras. De tarde optámos por fazer um dos trilhos de trekking recomendados. Trilho number 10. Dado que o mapa que nos tinham dado não era muito detalhado fomos perguntando pelo caminho às pessoas com que nos cruzávamos, mas rapidamente percebemos que apesar de “muito recomendados” os trilhos não deviam ser feitos pelos locais…praticamente apenas pelos turistas. Cada pessoa a quem perguntávamos olhava-nos espantada como se estivéssemos a perguntar qual o melhor caminho para chegar à Patagónia a partir de Tanah Rata. Subimos vários caminhos montanha acima, montanha abaixo e de cada vez que achávamos que estávamos no caminho certo, íamos parar a um abismo sem saída. Vimos imensas terraplanagens a serem feitas no caminho, sinal claro de expansão da actividade agrícola na região.
Tentativa 1:
Tentativa 2:
Tentativa 3:
Mais terraplanagem:
Já perto do fim de tarde, e sem qualquer indicação, parámos à porta do que parecia um terreno de uma casa particular e entrámos a medo, a olhar para todo o lado, à espera do primeiro tiro de caçadeira ou salto de um rottweiler na nossa direcção. Lá apareceu um senhor chinês na casa que por gestos nos indicou que sim, era mesmo ali, num caminho lateral, dentro da sua propriedade que começaria o trilho.
Fizemos talvez nem 10 minutos do caminho pelo meio da selva e a trepar a montanha, para tentar aproveitar a última luz, mas passado pouco tempo e com a ameaça de forte chuvada, decidimos ficar por ali e voltar atrás. Teríamos outras visitas no dia a seguir que iriam compensar. =)
Regressámos a tempo de descobrir um delicioso mini-mercado de fruta onde degustámos a deliciosa dragon-eye antes de um jantar tranquilo e bem baratinho num restaurante local.
Dia seguinte foi um dos melhores dias da viagem. Depois de um pequeno-almoço de supermercado (pão de forma, iogurte/leite achocolatado) apanhámos o autocarro (nada de táxis pois mínimo eram 60 ringgit, out of budget) com uma simpática hospedeira chinesa que nos tranquilizou dizendo-nos que nos avisaria quando estivéssemos no ponto de desembarque para a nossa primeira visita: as BOH tea plantations.
Mal desembarcámos vimos um letreiro a indicar uma boa caminhada de cerca de 3km até à plantação, mas foi uma caminhada muito agradável depois de conhecermos o Brock e a Deirdre, um casal americano em viagem há mais de ano e meio com os quais trocámos as experiências e aventuras já vividas. O tempo passou a voar e rapidamente o cenário à nossa volta se transformou numa ainda mais magnífica paisagem:
Chegados à plantação, visitámos depois a fábrica que naquele dia não laborava, pelo que tivemos apenas vislumbres do processo de produção. No final degustámos um chá da zona com uma vista impressionante para o vale no qual estava situada a fábrica na companhia do casal recém-conhecido.
O regresso foi igualmente rápido, com a distância a parecer mínima dada a conversa entusiasmante. No final do trilho, fizemos as despedidas e trocámos contactos, pois eles iam fazer outro dos trilhos recomendados na zona e nós queríamos visitar uma quinta de morangos (muito típicas na zona).
Fizemos o caminho a pé (surpreendente como ainda tínhamos energia), ou seja andámos mais de 1 hora até chegar ao próximo local. Pelo meio passámos por vendedores de fruta onde provámos outra deliciosa fruta cujo nome desconhecemos e tivemos durante uma boa meia-hora a companhia de um outro amigo, que carinhosamente apelidámos de Fox! =)
Chegados à Big Red Strawberry Farm que tinhamos decidido visitar, recarregámos energias com os “preserved strawberries”, pareciam morangos cristalizados e uma panqueca com morangos, ambos divinos. Perguntámos aos funcionários se não iam ter mais visitas guiadas naquela tarde. Pela reacção percebemos que visitas guiadas não era algo que estivessem habituados a fazer e um dos funcionários dirigiu-se a um senhor dos seus 50 anos que lá estava e que prontamente veio ter connosco de sorriso rasgado na cara. Era o dono e desde logo se voluntariou para nos mostrar a quinta e como produziam! O simpático Kumar simpatizou desde logo connosco, mochileiros tugas, porque explicou-nos, também ele era mochileiro. Todos os anos tira férias prolongadas de mochila às costas para explorar Ásia, Europa, o que for. Ainda não tinha visitado Espanha e Portugal, mas garantiu-nos que estavam na lista. O Kumar mostrou-nos absolutamente tudo, desde como montaram a estrutura, como converteram a quinta de tradicional para um modelo mais avançado em estufa. A quinta empregava já 40 trabalhadores produzindo várias espécies de alface, tomate e claro, morangos. Muita da produção era comprada por Singapura para consumo lá mas também para exportação para o Médio Oriente.
Dos 40 funcionários, poucos, muito poucos eram Malaios. Isto porque segundo o Kumar “Malaysians are lazy, they don’t want to work”, o que o obriga a contratar do Sri Lanka, Bangladesh entre outros países. Mostrou-nos ainda as instalações dos funcionários e o chef dedicado que ele tinha na quinta para cozinhar para toda a equipa.
No final ainda nos mostrou a Snowball, a sua simpática husky com quem ainda brincámos um pouco.
Ficámos rendidos com a sua humildade e amabilidade em nos mostrar a quinta e trocar algumas das histórias pelas quais já tinha passado. Trocámos contactos e desejámos-lhe as felicidades para o seu magnífico projecto que irá continuar a prosperar, estamos certos!
À saída da quinta, e já com algum cansaço nas pernas, começámos a caminhada de cerca de 5km em direcção a Tanah Rata, a pensar se ainda conseguiríamos algum autocarro, até que se iniciou o seguinte diálogo:
Diogo: “E se tentássemos apanhar boleia para Tanah Rata?”
Sara: “Podemos tentar, é provável que consigamos”
(Diogo estica dedo)
Sara: “Mas é melhor não continuarmos a andar de lado, paramos e esticamos o dedo.”
Parámos, virámo-nos para trás e esticámos o dedo e passados 0,3 segundos o primeiro carro que vinha a 100 metros atrás liga o pisca.
Carro bem bonitinho, lavadinho, bom aspecto, chinesa dos seus 40 anos ao volante.
Chinesa: “Where you go?”
Us: “Tanah Rata, but you can drop us before if you’re not going that far”
Chinesa: “No, is ok, get in”
Entrámos.
Us: “Thank you so much for stopping and giving us a ride, we really apreciate it!”
Chinesa: (Silêncio desconfortável)
Us: “So you work around here in Cameron Highlands?”
Chinesa: Yes. (Silêncio desconfortável)
Us: “We’re going to Penang after Cameron Highlands”
Chinesa: “Hum. You want me to leave you center Tanah Rata?”
Us: “Yes that would be perfect”.
Chinesa: (Silêncio desconfortável)
Chinesa: (Liga o rádio; na verdade eram vídeos Karaoke com músicas chinesas e respectiva letra, mas ainda assim manteve o silêncio)
Chegámos ao destino, agradecemos e saimos rapidamente ainda um pouco deslumbrados com a simpatia, mas confusos com o silêncio, pois ela parecia falar bom inglês…do pouco que se lhe ouviu.
Deixou-nos mesmo no centro, a escassos metros do nosso novo poiso (tínhamo-nos esquecido de referir que trocámos para outra pousada pelos supostamente magníficos scones com compota de morango que serviam ao pequeno-almoço) e agradecidos despedimo-nos desta enigmática senhora. =)
Um rápido jantar achinesado num restaurante muito perto e recolhemos para o merecido descanso depois do dia repleto de caminhada!
Next stop: Penang e Georgetown, a capital da comida de rua da Malásia, onde nos esperava outro encontro fortuito!
Por isso não percam o próximo episódio, que esperemos seja publicado muito em breve! =)















































































